terça-feira, 14 de outubro de 2014

Eu escolhi petralhar.

Eu me formei no ensino médio em 2004. Dois anos depois do Lula ser eleito presidente. Tempo suficiente pra lembrar de como era antes dele, mas insuficiente pra ver as mudanças que estavam começando a acontecer com ele.

Eu tinha uma amiga no colégio. Uma amiga que eu gostava muito. Que era inteligente, apesar da formação capenga que teve na escola (pública). Que pensava. Que questionava. Que adorava conhecer coisas novas, pessoas novas, pontos de vista novos. Que queria cursar filosofia. Que não era nem um pouco acomodada, ou preguiçosa. Que enxergava muito além do mundinho em que vivia.

Eu levava muita fé no futuro dessa minha amiga.

Mas o colégio acabou. Ela fez vestibular pra UFRGS, não passou. Tentou de novo: não passou. E não tinha condições de pagar uma faculdade particular. A responsabilidade bateu à porta. Ela teve que cuidar da irmãzinha, na época com cerca de dez anos. Cuidar da casa. Trabalhar. Pagar contas. Levar uma vida de adulto que não pode se dar ao luxo de questionar. Questionar nunca encheu a barriga de ninguém. Trabalhar sim.

Hoje, pelo facebook, eu vejo o que aconteceu com ela: trabalha como vendedora numa loja de roupas. É casada. Tem um filho. Absolutamente TODAS as postagens dela são relacionadas ao filho. Veja bem, não me incomoda ela ter filho, muito menos ser feliz em ser mãe. Me incomoda é ver que o mundo dela parece girar em volta do filho. E do marido. E do trabalho. Eu lembro daquela menina questionadora que eu conheci no colégio. E não consigo deixar de pensar que poderia ter sido  muito diferente se ela tivesse entrado na faculdade. Mesmo que ela levasse dez anos pra se formar. Mesmo que ela cursasse só um semestre. Mesmo que fosse pra decidir que o que ela queria mesmo era casar com um playboy e ser ryca. Mesmo que fosse pra, olha só, ser mãe, trabalhar como vendedora e focar a vida na tríade filho-marido-emprego. Pq eu saberia, com certeza, que ela ESCOLHEU aquilo. Que foi a vontade, e não a falta de oportunidade, que levou ela praquele caminho.

Eu queria que a gente tivesse nascido três anos mais tarde. Que a gente já tivesse pego uma estrutura que permitisse que ela enxergasse a universidade não como um sonho, mas como uma realidade. Mas não. Nascemos cedo demais. E, ao contrário de mim, ela nunca pode se dar ao luxo de levar a vida como queria, e não como precisava.

E é por ela. É pra que os adolescentes de hoje possam ter a oportunidade que ela não teve. Que eu voto na continuidade de um programa que diminuiu a segregação das pessoas. Voto no governo que fez as pessoas começarem a entender que estudar não é um privilégio: é um direito. Eu voto na Dilma. E espero, do fundo do coração, que ela também vote. Pra que o filho dela tenha a escolha que ela não teve dez anos atrás.

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