Já chega. Eu não vou aguentar mais isso. Não finja que nada aconteceu, porque aconteceu, sim. Não finja que está tudo bem, porque, olha só, não está tudo bem, e embora eu perceba a tua vontade de fingir que não foi nada, bom. Pra mim foi. Pra mim significou. Pra mim marcou, e da pior maneira possível.
Eu não vou fazer o teu jogo. Não vou fazer de conta. Eu não estou bem, eu não vou fingir. Eu já fingi durante muito tempo e, sabe, eu não ganhei nada com isso. Ou melhor, ganhei sim. Ganhei frustrações. Ganhei raiva. Ganhei essa má vontade de lidar com pessoas que não passa nunca. Ganhei um fundo de poço do qual eu sinto que não vou sair nunca mais. Amenizado, sim. Esquecido, não. Provavelmente nunca.
E agora, olha só, eu vou te contar a verdade, aquilo que eu penso, que eu sinto do fundo do meu coração: eu te desprezo. Eu te desprezo porque você é fraco, covarde, mesquinho. Porque, ao invés de lidar de frente com a situação (todas as situações), você preferiu fugir e se esconder. E agora reaparece, como se nada tivesse acontecido, como se estivesse tudo certo. E sabe, eu tenho pavor de gente assim. Tenho nojo. Tenho ódio. De gente que não é capaz de olhar pras próprias cagadas e lidar com elas. De gente que tem medo de lidar com as consequencias de seus próprios atos, e por isso finge que eles não existiram. Eu já conheço isso de longa data. De novo, eu já tive que lidar com isso. E de novo, eu não ganhei nada. Só perdi. Só chorei. E, quando eu estava na pior, não havia ninguém do meu lado. Simplesmente porque essas pessoas preferiram fingir que isso também não estava acontecendo.
Sabe. se essas pessoas tivessem me dito, em algum momento, qualquer momento. Onde eu estava errada. Onde eu deveria mudar. O que eu deveria fazer pra melhorar, talvez nada disso tivesse acontecido.Mas não preferiram se omitir, como boas covardes que são. Como você mesmo é. Se tivessem me avisado que, se eu continuasse daquele jeito, elas não iam aguentar. Porque eu também errei, e sei disso, e sinto muito. Mas se tem algo que eu sempre fui, desde que eu me lembre, foi sincera. Direta. Uma qualidade que eu tenho (talvez a única, talvez nem mesmo qualidade!) é ser verdadeira. É dizer o que me incomoda, o que eu não gosto, o que eu acho que deveria mudar. E eu faço isso, entre vários outros motivos, porque eu gostaria que fossem assim comigo. Porque eu prefiro a sinceridade, por mais dolorosa que seja, ao fingimento indolor. Porque eu sei que tenho defeitos, e sei que preciso lidar com eles. Então eu prefiro que me digam, que me apontem, porque é tudo sempre mais fácil com a ajuda de alguém de fora. Mas não, ninguém faz isso. Todos preferem não se comprometer. Todos preferem ficar na boa, tranquilos, na paz. Todos preferem fazer de conta que está tudo bem, mesmo quando não está. Principalmente quando não está. Todos preferem fugir do conflitos, mesmo quando esses conflitos servem para engrandecer, e não para destruir.
Todos são covardes. Covardes que nem você foi. E eu não preciso de mais covardes na minha volta. Por isso, saia já daqui. Eu não preciso de ti. Eu não preciso de gente que foge de conflitos. Eu sou um conflito. E tudo que eu não preciso é de gente que vá fugir de mim na primeira oportunidade, pra depois reaparecer e fingir que nada aconteceu.
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